“Entra cantando, entra dançando, na primeira estrela do céu. Remove a dor de não se ver o contorno daquilo que se pretende enxergar. Entre o vinho e a sede, entre o peixe e a rede, entre o corpo e a alma, entre o tempo e a hora. Entra cantando, entra dançando. Na primeira estrela do céu.” (Mario Meir)

Desde o pôr do sol de ontem, quando da primeira estrela no céu, entramos no ano 5787, segundo o calendário milenar nômade. Lua nova do mês de Libra, portal de novo ciclo, que se abre para dar espaço ao que chega. Fechamos a porta do ano que passou e carregamos conosco aquilo que é essencial, o que foi possível aprender, deixando morrer o que já se foi. A Lua Nova de Libra reúne uma energia que nos aproxima do próprio padrão da criação. Os antigos ensinavam que, neste momento, é como se toda a criação desaparecesse por uma fração de segundo para, em seguida, ser novamente recriada. É essa força de renovação que invocamos e utilizamos nesta celebração. A Lua Nova nos oferece uma oportunidade de recomeçar, de reiniciar o sistema do nosso mundo e de estabelecer novas bases para aquilo que desejamos manifestar. É um convite para recomeçar a nossa história, a nossa vida e o nosso caminho sob novas perspectivas, com novas escolhas e uma nova consciência. É como retornar ao instante primordial, quando tudo ainda está por ser criado. É o Gênesis por excelência. É tempo de nascer, é tempo de plantar as sementes. Abra meus olhos para que eu possa ver, abra meus ouvidos para que eu possa ouvir, abra meu coração para que eu possa entender. Que sejamos capazes de ouvir o vento, para cantar e dançar a vida e sorver o mistério aos poucos, como deve ser. Sem pressa, mas com movimento. Como o vento.

“Hoje celebramos a experiencia humana, da possibilidade de recomeçar. Entramos em um novo ciclo, trazendo conosco aquilo que vivemos, aquilo que aprendemos, aquilo que perdemos, aquilo que conquistamos, e também aquilo que ainda não conseguimos transformar. O novo não nasce da ausência do passado. O novo nasce quando conseguimos estabelecer uma nova relação com aquilo que vivemos. Yumá Truá é um rito de passagem, um momento onde interrompemos o ritmo habitual da existência para olhar novamente para a vida. Reconhecer o caminho percorrido e perguntar: o que ainda desejamos levar conosco. Os nômades chamavam esse dia de o encontro com os anjos. Anjos são inspirações que nos atravessam e modificam nossa percepção. Despertam possibilidades que permaneciam adormecidas. A tradição associou Tashritu, esse mês que se inicia, ao mito de Anat, antiga imagem feminina da força diante da adversidade. No rito nômade, Anat pode ser recebida como um símbolo de potência, a capacidade de atravessar as portas. Seu símbolo na natureza é o vento. O vento atravessa, desloca, refresca, desorganiza, derruba, espalha sementes, abre espaço. Não podemos segurá-lo, não podemos obrigá-lo a permanecer. O vento é uma bela imagem da própria existência. A vida também nos atravessa, nem tudo acontece como desejamos. Há encontros e separações, começos e encerramentos. Construção e perda, prazer e sofrimento. O desafio está em continuar o movimento quando as forças se modificam. Um dos momentos mais centrais do ritual de Yumá Truá é o toque do Keren. Alguém respira, o ar entra no corpo, o corpo sopra, o sopro atravessa o chifre do antílope, e aquilo que era respiração se transforma em som. O Keren pode ser uma imagem da própria existência. Aquilo que nos atravessa pode ganhar outra forma quando passa por nós. Recebemos experiência, recebemos palavras, recebemos afetos, histórias, marcas daqueles que vieram antes de nós. Mas não precisamos devolver ao mundo exatamente aquilo que recebemos. Entre aquilo que entra e aquilo que sai existe um corpo. E esse corpo é vivo. Vivência. Existe uma consciência, uma história, uma possibilidade de transformação. O som do Keren também possui uma característica particular, ele interrompe. Cada toque interrompe aquilo que estava acontecendo. E anuncia que alguma coisa precisa ser novamente percebida. Na antiga linguagem dos nômades, Keren também significa irradiação. Irradiar significa reconhecer que aquilo que fazemos não termina necessariamente em nós. Somos atravessados pelo mundo e ao mesmo tempo devolvemos continuamente alguma coisa a ele. Recebemos e devolvemos. O ar é recebido, o som é devolvido. O Keren nos chama à presença. Entra cantando, entra dançando, na primeira estrela do céu. Remove a dor de não se ver o contorno daquilo que se pretende enxergar. Entre o vinho e a sede, entre o peixe e a rede, entre o corpo e a alma, entre o tempo e a hora. Entra cantando, entra dançando. Na primeira estrela do céu.” Ena Shamaena de Mário Meir, em 01 de Tashritu de 5787. Na imagem, tela de Meg Mandaya.

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